A filosofia dos pés descalços
19.abril.2010
“De mãos vazias eu entrei no mundo, descalço vou deixá-lo. Minha vinda, minha ida — dois acontecimentos simples que se entrelaçam” ~ Kozan Ichikyo
Ontem de manhã eu corri umas milhas nos meus Vibram Fivefingers (depois escrevo mais sobre isso) projetados para imitar o correr descalço.
Então eu tirei os sapatos minimalistas e corri descalço por mais 800m. Foi liberador.
Mais tarde, caminhei por algumas horas, tirando minhas sandálias boa parte do trajeto. Hoje andei descalço novamente. No andar descalço há uma sensação de leveza, liberdade, simplicidade, alegria.
Imagine andar descalço na grama alta, ou na areia fria à noite. Estas sensações maravilhosas que pessoas que só usam sapatos não podem desfrutar.
Cheguei à conclusão que, andar descalço é uma metáfora perfeita para a minha filosofia de vida: a filosofia dos pés descalços.
Quando descalço, você simplifica, se torna um minimalista.
É uma filosofia difícil de explicar, porque outras pessoas julgam como impraticável ou hippie-esquisito (como se isso fosse ruim). É muito prático, e mesmo que seja meio esquisito, é também belo.
É a vida simples, resumidamente.
A filosofia dos pés descalços, em partes
Para abraças a filosofia dos pés descalços, não é necessário tirar os sapatos. Repito: é uma metáfora para como viver a vida, e estes princípios podem ser aplicados a qualquer coisa que se faça.
Leve: quando você está descalço, sente-se leve, e não está sobrecarregado de coisas. Em qualquer coisa na vida, se você pode se sentir leve, é algo maravilhoso. Pense em viajar leve, se mudar para uma nova cidade sem carregar muita coisa.
Livre: Andando descalço, você se sente livre, sem a restrição dos sapatos. Quanto menos carga e restrições você tiver na vida, mais livre é. Pense em quão simples seria levantar-se e viajar, se mudar, trocar de emprego, fazer algo com um amigo no meio de um dia de trabalho.
Nú: Sem sapatos, você se sente um pouco nú, e estar nú em público é meio assustador. Mas também é uma sensação estimulante, e uma vez que você se sinta confortável com esta nudez, é divertido. Blogar o faz se sentir assim, você se coloca no mundo, nú, e isso é assustador de início. Fazer algo diferente, onde você se exponha é como estar nú. Mas você se acostuma, e não é tão assustador assim.
Prazeroso: O ponto-chave de andar descalço é a experiência de sentir o chão sob os seus pés. As sensações são maravilhosas: frio, calor, texturas, maciez, suave, áspero. Em qualquer coisa na vida, se você puder experenciar as sensações em qualquer coisa que estiver fazendo, é ótimo. Pense nas sensações de comer, nadar, lavar a louça, sentar numa varanda ao ar livre, deitar na grama ao sol, beijar debaixo de chuva.
Atento: Andando descalço, você fica mais atento aonde pisa. Quando calçado, pode andar kilômetros sem realmente pensar nas superfícies que está pisando. Em qualquer coisa que fizer, aumentar a sua atenção do que há em volta de si é algo desejável. Pense em caminhar ao ar livre versus andar de carro, ou desligar o celular então você pode conversar com as pessoas à sua volta ou prestar atenção na beleza do ambiente em torno de si.
Presente: A beleza de andar descalço é que isso lhe traz de volta ao momento presente. É difícil se prender em um deslize de alguém, ou se preocupar com o que possa acontecer no futuro, enquanto se está andando descalço. Em qualquer coisa que fizer, se puder estar presente no agora, você irá experenciar a vida no seu máximo, diminuirá as chances de se prender na raiva ou consumido pela preocupação ou preocupado com eventos futuros.
Não-conformismo: Uma das coisas mais difíceis de andar descalço não é a temperatura ou possível dor ou pedrinhas, é a não conformidade de tudo – é estar preocupado que os outros lhe acharão um idiota, sem-teto, ou algum tipo de radical perigoso. E ainda assim, aprendi a acolher o meu lado não-conformista, resignar-me a ser um pouco diferente, me sentir honrado de não ser uma das ovelhas. Não existe nada de errado em não seguir a norma social, se for por um bom motivo.
Não-consumismo: As empresas que produzem sapatos detestariam se houvesse um movimento grande do “descalcismo”, pois não há produto que elas possam vender como uma solução. Isso não procede na ecologia, existem toneladas de produtos verdes que estão gerando milhões de dólares para corporações. Acredito em abandonar de sapatos como acredito em abandonar qualquer tipo de produto que se compre como a solução de problemas da vida. A Vida é melhor com menos, não mais, e quando você pensa em si mesmo como um humano ao invés de um consumidor, está quebrando um ciclo eterno de ganhar, comprar, usar.
Como viver uma vida Descalço
Os princípios acima estão bons, e podem chamar a atenção de alguns, mas o que você quer é um guia prático, não?
Pois eu não vou lhe dar. Não existe um tamanho que sirva em todos os pés, nem é desejável viver a sua vida sob a prescrição de outrem. O ponto central é fazer do seu jeito, sem comprar um dos meus livros ou fazer exatamente como faço.
Viva esta filosofia, em pequenas porções, e veja se gosta. Leva algum tempo para se ajustar à esta abordaem, mas é ótimo no final das contas.
Entretanto, há algumas coisas que você pode considerar:
- Tente andar descalço
- Se livre de algumas caixas de entulho hoje
- Quando sair de casa, leve menos que o habitual
- Quando encontrar a si mesmo preocupado sobre o futuro ou passado, respire e mantenha o foco no ar entrando e saindo
- Quando se perceber querendo comprar algo, pare. Então pense em como você pode viver sem comprar aquilo.
- Reserve um tempo para desfrutar de alguns prazeres simples hoje: o lento saborear de uma pequena porção de algo delicioso, observar a natureza, passar um tempo com o ser amado, caminhar.
- Tente alguma diversão minimalista.
- Pense nas restrições auto-impostas, e veja se pode deixar para lá algumas delas.
- Sorria, e respire.
- Mais do que tudo, esteja presente e aproveite a vida.
Post inspirado por Adventures of a Barefoot Geek & Barefoot Ted, entre outros.
Leo Babauta 
Criador e escritor do blog Zen Habits, Minimalist e Write to Done Casado, seis filhos (!) escritor, corredor e vegano, morador de São Francisco - CA, Leo é um renomado escritor para web, tendo desenvolvido um estilo simples, direto e inconfundível. Saiba mais sobre o Leo e confira o seu livro, Zen to Done.
Traduzido por Mauricio Wolff com autorização do autor.
Nenhum comentário ainda.